É preciso dar os parabéns aos responsáveis pelo Google-Zero. A campanha de marketing viral foi bem feita, pois recebi vários e-mails a aconselhar-me a mudança para este motor de busca português, clone do Google, preto e com pretensões ecológicas.
Registado a 8 de Dezembro de 2007, uma semana depois o Google-Zero teve direito a um artigo no Público e voltou a ser referido a 20 de Dezembro no Diário Digital, órgão que destacava as 60 mil visitas obtidas pelo motor de pesquisa na primeira semana, o que supostamente equivalia a uma poupança de 120.000 watts-hora.
Ora, como é que os responsáveis pelo Google-Zero chegam a este valor?
No site surgem números impressionantes sobre o cálculo de redução de emissões de CO2, mas não há uma explicação concreta que ajude a perceber como se chega a tais valores.
A desconfiança adensa-se quando se lê a notícia do Público e se percebe que esta questão não é propriamente nova e até já mereceu a atenção do jornalista de tecnologia australiano Darren Yates, que a propósito do Blackle (um parente do Google-Zero já referido no Mudar o Mundo) fez testes a 27 monitores diferentes e concluiu que só existe uma efectiva poupança energética nos CRT.
Os testes efectuados por Darren Yates indicam ainda que utilizar um motor de busca com fundo escuro não faz grande diferença para quem usa monitores LCD – aliás, em muitos casos chega a ser contraproducente, pois os consumos são ligeiramente mais elevados com fundos negros!
Como tal, ele sugere a quem estiver mesmo interessado em poupar energia que: desligue o PC quando não o vai usar, baixe o brilho do ecrã, desligue o modem ADSL durante a noite, desligue tudo na tomada e utilize as opções de gestão de energia do computador.
Mas as dúvidas não se ficam por aqui.
O funcionamento do Google-Zero depende do serviço Google Custom Search Engine e, ao abrigo do mesmo, pode ter publicidade Google AdSense nas páginas de resultados, de modo a obter rendimentos extra.
Porém, os termos de serviço do CSE são omissos quanto à presença de publicidade na página de pesquisa inicial, um aspecto aproveitado pelos responsáveis do Google-Zero, que nela colocaram um banner de publicidade ao monitor Pioneer Kuro e links de texto ligados ao programa de comissões por clique da TradeDoubler.
Com 60 mil visitas na primeira semana, é bem provável que o custo mínimo de registar um site e alojá-lo (que pode ser inferior a 20 euros por ano) já tenha sido largamente compensado através de retorno publicitário.
Saber ganhar dinheiro não é ilegal. Eu é que já estou farto de ver a ecologia ser usada para tal, especialmente se a vantagem ambiental do produto é dúbia, como se vê pela questão da poupança de energia acima referida.
Por fim, esta história do Google-Zero pôs-me a pensar no jornalismo instantâneo e acrítico, aquele que reproduz comunicados sem questionar, sem investigar e sem demonstrar a mais pequena réstia de memória – afinal, os testes de Darren Yates à poupança energética do Blackle são de Agosto último.
Mas abordar esse assunto era todo um outro post…
PS: Neste caso concreto, o Público fez bem o seu trabalho, mas o Diário Digital foi um claro exemplo de jornalismo instantâneo e acrítico.
Excelente a postagem meu caro. Acho que é por ai mesmo. Eu tentei ser um pouco cauteloso em minha critica no blog, até mesmo porque meu blog é relacionado mais a informática do que ecologia, mas tudo leva a crer que estejamos certos. Nada contra rentabilidade atravez de adsense, até mesmo porque eu uso, mas levantar uma bandeira de protetor da natureza e enganar os outros…dai eu não concordo mesmo.
Abraço.
Muito bom este post! Vou acompanhar o blog.
Muito obrigado pela informação caro Luís Humberto Teixeira. Sinceramente desconhecia estas “contra-indicações” do Google-Zero, daí que, também eu, o tenho “publicitado” no Eco-blog da minha escola.
Se me permitir gostaria de postar este assunto naquele blog (com as devidas referências, naturalmente).
Muito obrigada pelo esclarecimento, não tinha conhecimento desses pormenores. E é realmente triste ver que há quem se aproveite de boas intenções ecológicas para vender produtos que afinal não são assim tão amigos do ambiente como nos querem fazer acreditar.
E devolvo também as saudações vegetarianas.
Muito interessante esta análise! E a questão dos monitores não é de menosprezar, uma vez que os CRT estão a ser cada vez menos utilizados.
De facto uma das coisas que mais me tem entristecido nos últimos anos é ver os efeitos perversos da “moda” do ambiente. É ver pessoas e organizações que nunca se preocuparam verdadeiramente com esta questão usarem-na porque é um dos instrumentos de marketing obrigatórios actualmente, sem nunca irem mais a fundo. E esta situação do Google-Zero não será das mais graves…
Dá-me vontade de rir ver os planos de gestão ambiental de certas organizações, que confrontadas com determinadas perguntas revelam automaticamente a falta de sustentação, e de consciência, das suas generosas intenções ecológicas.
Tendo-me especializado no jornalismo de ambiente, apercebi-me também, como o Luís refere e muito bem, que raramente essas perguntas são feitas, pelo que as organizações não têm em geral de se preocupar com isso. É de morte ver a cara das pessoas quando acham que são umas pioneiras heroínas e nós parecemos duvidar disso LOL!
Para pessoas que como eu trazem a consciência ambiental praticamente do berço, apenas alimentada e aprofundada ao longo dos anos pela experiência e observação, é chocante ver como muito boa gente trabalha e estuda na área do ambiente e não tem a mais elementar consciência ecológica, nem consegue vislumbrar o porquê de certos princípios fundamentais (como o facto de ter de haver uma hierarquia dos 3 R’s na gestão dos resíduos)…
Nem tudo é negativo. O facto do ambiente ser uma “moda” é apenas a outra face do verdadeiro poder e importância que ele assumiu nas últimas décadas, e isso reflecte-se em avanços tremendos (que em Portugal estiveram quase sempre dependentes da nossa integração na UE…).
No entanto,hoje os ecologistas, ambientalistas, cidadãos conscientes, altruístas ou bem intencionados, como lhes queiram chamar (já tenho medo dos termos…), enfrentam um obstáculo que não é de menosprezar: mais uma vez têm de gritar para ser ouvidos, perante o intenso ruído pretensamente “ambiental” que ensurdece a sociedade.
[…] Mais informações em: http://vamos.mudaromundo.com/2007/12/21/google-zero/ […]
Realmente fiquei surpreso. Tinha divulgado no meu blog o Google-Zero com a melhor das intenções, mas felizmente você me abriu os olhos…
Segue o link com a retratação:
http://www.danielrossi.com.br/?p=111
[]s
[…] no mínimo estranho que uma marca bem sucedida como estava a ser a Google-Zero - afinal, 60.000 acessos na primeira semana é obra - desapareça de um dia para o outro, sem […]
[…] a surfar a onda ambiental! e Google Zero, no Mudar o Mundo. […]