A actual obsessão da direcção do Parque Natural da Arrábida é o Parque Marinho Prof. Luíz Saldanha, para o qual foram já aprovadas avultadas verbas. Em contraste, e apesar de existirem verbas específicas, a parte terrestre parece ter desaparecido do mapa, (as praias encontram-se coberta de lixo e o sistema de vídeovigilância não funciona desde Maio, não existindo sequer estimativa de quando será reparado).
Apesar da excessiva preocupação com o parque marinho há um verdadeiro fechar de olhos às suas reais ameaças.
Em plena época balnear os vigilantes/técnicos do Parque preocuparam-se em advertir as pessoas que apanhavam minhocas, mexilhão, etc. Porque é proibido apanhar seja o que for… Até calhaus.
Para além dos “apanha-minhocas”…Que o parque parece considerar como uma das maiores ameaças…Há também as embarcações de recreio, apontadas como poluidoras marinhas infernais que não interessam nem ao menino Jesus e que destroem tudo e mais alguma coisa.
As actuais regras do parque marinho, impedem as embarcações de circular a menos de 425 m da costa em determinadas zonas (mais do que o que prevê o decreto lei da náutica de recreio - 300 m da praia e não de toda a costa), bem como fundear a menos desta distância, para evitar o arrastamento dos fundos.
Após providência cautelar foram colocadas poitas em algumas zonas do parque para tentar conciliar interesses. Mas a verdade é que continua inacessível o acesso de barco a determinadas praias, porque o parque nem as considera como praias…O que revela alguma falta de consideração pela população da zona.
Consegue-se perceber que as embarcações não possam fundear e também que não sejam colocadas poitas nestes locais, até porque algumas zonas estão a ser alvo de projectos de repovoamento de fundos marinhos. O que não se entende é a proibição de acesso de barco a algumas das praias como Monte de Areia e Coelhos.
A proibição de tudo e mais alguma coisa na parte marinha, e o massacre aos “apanha minhocas” e náutica de recreio, que não passa de uma actividade sazonal, permite ofuscar as verdadeiras ameaças ao parque marinho: a indústria (Lisnave, Portucel, Secil, etc.) e o esgoto da cidade de Setúbal. É o chamado tapar o sol com a peneira.
Lembro que em Agosto de 2005 a costa da Arrábida e de Tróia se encheu de peixe morto e moribundo, e de certeza que os responsáveis não foram nem os “apanha-minhocas” nem os praticantes de náutica de recreio. Por outro lado, replantar os fundos com Zostera marina de nada servirá pois as fontes de poluição não foram nem serão eliminadas (descargas da indústria no estuário).
A Lisnave foi uma das grandes responsáveis pela poluição actual do rio Tejo que se encontra actualmente saturado de produtos químicos, a sua deslocação para o Sado não augura nada de bom. Para começar, aumentou imenso o tráfego de navios, o que provoca com frequência o aparecimento de nafta na areia, e como se não bastasse a constante limpeza do canal de navegação impede a reposição de sedimentos e a areia da praia tem desaparecido de forma alarmante.
Nos últimos tempos foram várias as notícias sobre o lixo que se acumula nas praias do Portinho da Arrábida. Alguns moradores, proprietários e visitantes ajudam a retirar o lixo mais evidente, e ninguém entende porque não são os técnicos do parque a actuar. Não faz sentido disponibilizar meios para advertir os “apanha-minhocas”, barcos para advertir barquinhos de recreio, e nada fazer para a limpeza das praias, para advertir quem abandona lixo em pleno parque natural, e já agora também para aumentar a fiscalização da indústria e monitorizar continuamente as descargas.