Algures, num tempo e espaço que não nos interessa muito pressupor quais, uma criança vive no seu local particular, um telhado – que funciona literalmente como um laboratório de experiências humanas. Nesse espaço ela brinca, garatuja no seu livro e, sozinha, naturalmente se aborrece, enfastiando-se daquele lugar aparentemente improficiente. Com a naturalidade absurda, evidente na narrativa, ela recorre à sua corda, onde estão penduradas roupas de reclusos, e busca três indivíduos que caem ali, numa falsa naturalidade, num evidente confrangimento e numa expectação crescente. Rápido se percebe a razão pela qual ali estão instalados, têm de entreter a criança que se entedia e demanda um entretimento obrigatório. Uns contam uma história, outros inventam outra história, sempre pouco articulados entre eles, até que a criança volta a enfastiar-se, eles compreendem isso e a expectativa volta a engrandecer. Por que razão temem eles aquela criança?
A criança manda-os vestir outros trajes e eles obedecem, mas negam-se de seguida quando ela lhes pede uma história articulada entre os três. Surge então uma indubitável pendência de forças, estranhamente pugnada, resolvida de imediato, quando no “nada” aparece uma arma na mão da criança. A perturbação atinente à expectativa está revelada, mas nem por isso cessa de crescer…
Cabeça de prego sem cabeça revela-se um espectáculo de iniquidades profundamente ingénuas, de testes humanos, de vivências constrangidas e liberdades obtusas, sempre na extensão que é a essência e a dimensão humana. Com uma estética bando, este é uma encenação que entretém e que, acima de tudo, que nos faz pensar sobre a condição humana.