
Existem no Parque Natural da Arrábida (PNA) três matas integrais, coberta, dos vidais e solitário, esta última é provavelmente a mais conhecida e emblemática deste local.
Antes da classificação como reservas integrais, estes locais eram alvo de intervenção humana. A mata do Solitário, em particular, era submetida a uma intervenção constante - todas as quintas-feiras havia autorização para o corte ou recolha de árvores velhas, doentes ou tortas. Esta intervenção era controlada e permitiu que a mata atingisse as características únicas que hoje lhe são atribuídas (espécies arbustivas com porte arbóreo). A abertura de clareiras permitia a regeneração das espécies e a renovação de um banco de sementes activo.
A intervenção de Sebastião da Gama está ligada ao arrendamento de uma parcela da mata a carvoeiros que alegadamente cortavam de forma exagerada…Pelo que sei, este corte exagerado ocorreu após o ciclone de 1941 que fez abater a maior parte das árvores. Diz quem se lembra, que as árvores desta zona da mata (não toda), bem como de outras zonas do parque, ficaram todas deitadas (rente ao chão) face à força do vento.
Quando da criação do PNA e consequente classificação das matas como reservas integrais, passou a ser interdita qualquer intervenção humana, como a simples passagem.
A vegetação desta zona é denominada pelo PNA, tal como pode ser confirmado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 141/2005 (Regulamento do Plano de Ordenamento do PNA), como vegetação climácica, mas estudos realizados neste local revelaram que o verdadeiro estado em que a mata se encontra é o pré-climácico. Num estado climácico a vegetação apresenta-se em equilíbrio, existindo regeneração e vegetação de todas as classes etárias. No caso das matas integrais do parque isto não acontece e a situação é bem mais frágil pois as espécies de interesse prioritário em termos de conservação, como é o caso do carvalho português, apresentam apenas alguns exemplares muito velhos e não existe regeneração (mata cerrada que define um ambiente sombrio que impede a regeneração, consequentemente o banco de sementes não é activo e poderá não voltar a ser). A opção por uma gestão passiva diminuiu as hipóteses de evolução destes locais. As principais consequências são a caducidade e a diminuição da capacidade de resiliência, traduzida na grande fragilidade desta vegetação face a qualquer tipo de perturbação, pelo que urge planear uma gestão activa para estes espaços, e/ou redefinir objectivos de conservação. Não é obrigatório proteger apenas a vegetação climácica, mas é importantíssimo definir qual a vegetação que se pretende conservar para assim definir quais a melhores estratégias para atingir esses objectivos.
Os ecossistemas mediterrânicos estão intimamente dependentes da intervenção humana, como o comprovam, por exemplo, o tipo de estratégias ao fogo que muitas das plantas desta região adoptaram. Cortar abruptamente como milhares de anos de evolução não cumpre objectivos de conservação da biodiversidade.
Não é fácil assumir que não foi escolhida a melhor forma de gestão, mas é essencial ter inteligência suficiente para se saber que não se sabe tudo. É natural que aquilo que parecia certo há 30 anos não o seja agora, tudo muda e nem tudo para pior. É necessário salvar de novo a mata do Solitário!