
A Ribeira de Coina, ou Vala Real, é um dos territórios mais valiosos - em termos históricos, ambientais e económicos - da Península de Setúbal. No entanto, é uma das zonas mais abandonadas do país.
Apesar de se encontrar em plena fase de destruição, ninguém se parece preocupar com isso: nem as populações vizinhas, nem os que diariamente passam na Estrada Nacional 10, nem mesmo as organizações ecologistas.
Talvez isso aconteça por se encontrar na fronteira entre vários municípios, mas provavelmente será um conjunto de factores o que explica o abandono a que se encontra votada - incluindo o desconhecimento da História pelas populações.
A linha de água que corre pela Várzea de Coina nasce na Serra da Arrábida, próximo da pequena povoação do Parral, que pertence ao concelho de Sesimbra. Depois de percorrer a zona de Azeitão, volta a ser abrangida pelos limites de Sesimbra, já na Quinta do Conde. Nesta zona a Várzea encontra-se ocupada por empresas de venda de material de construção, em aterros que ocupam o antigo leito.
No troço seguinte, adjacente à Quinta do Conde, é atravessada pela estrada que vai desta povoação para nascente, pela auto-estrada A2 e pela linha do comboio. Nesta zona existem enormes areeiros e começam a surgir construções na margem da Várzea. Mais a juzante encontra-se a povoação de Coina, e logo a seguir desenvolve-se, a ritmo alucinante, um inqualificável “parque industrial” promovido pela Câmara do Seixal.
Finalmente a Várzea dissolve-se num braço do rio Tejo, em cujas margens se encontram os terrenos contaminados da Siderurgia Nacional e a Escola de Fuzileiros - antigo Complexo Real de Vale de Zebro, que foi o grande centro produtor de apoio às grandes navegações portuguesas.
Todo este magnífico corredor ecológico - a Vala Real, a Várzea e o troço de rio - deveria estar a ser preservado e aproveitado como o acesso privilegiado a Azeitão e à Arrábida, valorizando-se a sua riqueza ambiental e promovendo actividades turísticas ecologicamente sustentáveis e associadas à agricultura local (queijos, vinhos, gastronomia).
Em vez disso, proliferam empresas de baixíssimo valor, com armazenamento ao ar-livre e parques de venda de automóveis usados - enfim, tudo o que pode ser imaginado para desqualificar e destruir uma região de elevado potencial económico.
Aquando do cerco de Lisboa pelos espanhóis, o Condestável Nuno Álvares Pereira subiu o Rio Coina para se encontrar com o Mestre de Avis. O Rio Coina era de facto a via de ligação entre Lisboa e Azeitão, e depois Setúbal. Foi aqui que o Marquês de Pombal instalou uma fábrica de vidro - juntamente com uma de tecidos em Azeitão - de acordo com o seu projecto de dotar o país de manufacturas modernas: nada disso vingou.
Tal como a Serra da Arrábida, esta zona foi adquirida (ao desbarato) durante o Liberalismo, para acabar vendida, no século XX, a uma empresa de especulação imobiliária (António Xavier de Lima) que ali acabou por planear e edificar a povoação de mais acelerado crescimento do Portugal contemporâneo: a Quinta do Conde.
Parcialmente resgatada ao destino de dormitório de Lisboa, a Quinta do Conde tem de olhar para a Várzea de Coina como um território essencial ao seu desenvolvimento e qualificação.
Infelizmente, as fronteiras administrativas colocam a maior parte da Várzea noutros concelhos, o que constitui uma dificuldade adicional. É provável que uma população recente não sinta ainda como seu aquele território: mas tem de o fazer rapidamente, antes que seja tarde demais.
Algumas coordenadas terrestres (usar o Google Earth para a respectiva localização):
Obrigado pelos detalhes históricos João. É sempre bom ficar a saber mais sobre algo que está aqui tão próximo e ao mesmo tempo tão esquecido.
A única informação que eu já tinha ouvido sobre a zona por onde passa a Ribeira de Coina era relativa ao Pinhal de Negreiros, que teria esse nome devido ao tráfico de escravos que se fazia naquele local… provavelmente vindos em barcos.
É possível saber se a ribeira ainda é navegável? E até onde?
Não sei até onde seria navegável, embora exista o topónimo Porto da Vila, na zona das aldeias de Azeitão, que terá servido como porto fluvial no que seria um afluente do rio Coina.
[…] Um artigo do João Aldeia sobre a ribeira de Coina (que mais tarde viemos a descobrir que era mais conhecida localmente, e historicamente, como Rio Coina) deu origem a um passeio de reconhecimento pelas margens, de onde surgiu a ideia de uma iniciativa que visasse ajudar a estabilizar as mesmas. […]
Que romântico seria ainda se hoge en dia se podesse viajar por rio até Azeitão?!… ou plo menos até Pinhal de Negreiros. Será que este lugar obteve o nome porque era ali “que os barcos descarregavam os escravos” que tipo de barcos…? e para onde se destinavam os escravos? haverá datas consisas? em que datas…? haverá provas a onde? Se alguém me poder ilucidar, fico-lhes imensamente grato. obrigado.
Em 1959 aprendi na escola que um dos afluentes da margem esquerda do rio Tejo era o RIO COINA. O Rio nunca foi uma ribeira. Tinha o estatuto de RIO. Se agora tem estatuto de ribeira ou curso de água é devido ao seu assoreamento, e destruição ambiental. Estudos antigos dão como provado a existência de estaleiros de construção de Naus e Caravelas em Coina. A qualidade das águas do curso do rio deveria ser tão boa e abundante, desde a sua nascente junto á localidade do Parral, até á entrada no Tejo junto a Plahais, que à primitiva localidade de Coina ( Coina-a-velha) lhe chamavam AQUABONA.
Salvem o RIO COINA.
Bem, o Rio Coina foi de facto um Rio, mas não pode ter tido um caudal muito grande, mesmo antes do assoreamento, por duas razões: o percurso desde a Arrábida é muito curto, e trata-se de um solo calcário, bastante permeável, que absorve boa parte da chuva (ao contrário dos solos argilosos). A grandiosidade do rio Coina dever-se-ia em parte à sua natureza de regolfo. É o mesmo que acontece com o rio Tejo em Lisboa, o rio, apesar de caudaloso, não tem aquele caudal enorme correspondente à largura das margens entre Lx e Almada. Trata-se de uma ocupação por água, após a subida do nível médio dosoceanos, dum leito cavado ao longo de milénios.
Tem razão quanto ao grande centro que Coina constituiu de apoio às navegações, incluindo a fabricação do biscoito que era embarcado, como alimento que se conservava mais tempo que outros produtos. Mas essa zona de coina, ainda hoje visível frente a Vale de Zebro, tem também a natureza dum regolfo.
O assoreamento do rio Coina é um fenómeno natural, aconteceu a todos os rios portugueses e dificilmente seria renaturalizado com há séculos (embora, em alguns países, se construal lagos artificais superiores ao que seria o alagamento de toda a varzea do rio Coina). Em todo o caso o rio, ou ribeira (não é o nome que vai mudar o que lá está) tem de ser limpa, regularizada, adaptada a actividades lúdicas, desportivas, agricultura lúdica, etc. E não pode continuar a ser destruída com extracção de areias e atravessamentos de estradas e combóio como tem sido feito (deveria ter sido sobre arcos).